PAPEL E CANETA

Papel e caneta:
Sinônimo de inutilidade
O agir medíocre é a força do progresso
O cinismo dos honrados é a opressão dos valores singulares
Quero, logo existo
Mas como querer sem ver?
Enquanto escrevo me destaco
Eu ainda chegarei ao ápice dos inúteis.

MAR QUE CURA

Punhas no mar causa
Do esquecimento
Da vida sem pausa
De vis pensamentos

Da prepotência tua
À consciência pura
Duma ciência nua
Ei-lo, mar das curas

Os virgens de teu poder
Sem catarse de seu ser,
Às cinzas fortes são
Sem calmo coração

Coisificam-se abstrações
Doces tornam-se as canções
Fazem-se concretas ilusões

E se dorosamente mudas
De lixo a uma água fluente
De doentio a forte ente
Deste mar tua vida inundas

A MÁSCARA QUE ESCONDE AS CHAGAS

Por todos os lados
Vejo erros sacros

A dor esconder
É futuramente
Uma maior ter

Muita razão eu tive
Sempre certo estive
Tanto que nem
Mentir mais sei
Etos ausente,
Bom valor dei

Minha vontade,
Sentidos meus
Alheios são
Não sou mais eu

Minha família diminuiu
Tão logo estarei só
Família dum mundo diversificado
Há grandes divergências e vieses
Mas todos estão no esoterismo capital

OS IMPRESTÁVEIS

Sucumbindo sem atenção
Está uma complexa casta
Composta por uma cadeia
De subinformados condenados

A explosão de néon
É suficiente para divulgar
A ideologia dos livres
Que não sabem o que é liberdade

Ó grande céu inebriante
Quanto das tuas estrelas
São desejos alcançados
Em troca do existir
Dos eslavos alienados?

Aliens de si mesmos
Quem dera que fossem
O que quisessem ver
Mas veem a vontade alheia
Aprendem a tê-la como sua

Já eu, também sou um imprestável
No entanto
Sou o pus de sua democracia

A NOVA PALAVRA

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No malabarismo
Da velocidade
Minh’alma evade
De todos os “ismos”

Dizem que nada souSartre%5B1%5D
Mas que tudo posso ser
O que me originou?
Signo meu a água ter?
Ou criou-me uma perfeição
Dita enebriante controle?
Alguém realmente viu
Sua indicílima ação?

Comuns diabos
De prepotentes castas
O néon se entificou
E os escondeu

Dessa luta de cabeças
Quero sair da abstração
E absorto ficar
O néon me solve
Atônito estou
Quem precisa dum ideal?
Quem precisa buscar-se?
Quem precisa fazer-se?
Por que a ti e a tudo conhecer?

Meu Tudo,
Me ignora um pouco
Que sou livre
E sem esforço
Eu sou feliz

À INFELICIDADE DA GRANDE ALMA

Saramago, a lua é tão linda!
Pessoa, o mar dá-me vigor!
Mesmo sentindo dor
Que as sombras se danem!

POUCO ME IMPORTA ( à moderna cabeça adiposa)

Se com teu medo e com tua libido lucrar
Pouco vou me importar
Se com minha forte luz
Estás convicto
Estás convencido
Estás vencido
Pouco me importa
Se as insurgentes ideias subversivas a ti por mim chegam distorcidas
Pouco me importa
Se disser que só eu faço arte e só eu posso divulgá-la
Pouco me importa
Se eu impedir que intelectuais estejam entre as massas
Pouco me importará
Se aperfeiçoei meu modo de controlar fingindo estar também revoltado
Ora, constantemente me renovo e me adapto
Por isso até hoje existo
Estou indiferente à tua queixa
Porque se sozinho com todo esse ódio queres me derrubar e se nem em mim podes encostar.
Com este sorriso adiposo,
Nada vou me importar

MODERNO CORONELISMO

Minha cidade cuja vida social dos que nela vivem aparenta ser a de cem anos atrás:

casara e prosperara, graças ao dote da mulher e à sua atividade clínica. Com esta não gastava grande energia mental: tendo de cor uma meia dúzia de receitas, ele, desde muito, conseguira enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário.
 Presidente da câmara, era uma das pessoas mais consideráveis de Curuzu, e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua afabilidade e simplicidade(…)
 Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e preceitos, nas mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumentos de suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhes a iniciativa e independência, abatendo-as e desmoralizando-as.

 (Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto)

ESTA DEMOCRACIA

Num mundo de algunscafe_filosofico
Feito só para poucos
Só de certas pessoas
Pois são os melhores alvos

Num mundo onde só os grandes fazem arte
Arte monopartidária, ditatorial
mais burguesa do que nunca
Onde nem os anormais são subversivos

Comprovando que a repressão
Aumenta o número de humanistas

Cada um tendo sua verdade
E se não as souber julgar
Elas lhe impõem, te discriminam e te entorpecem
Castram-te da complexa pluralidade do real

Jovens, espelho do mundo
Mundo, espelho dos jovens
Que se submetem ou seguem
A aprimorada forma de manipulação
Pois só leem, mas não sabem o que e como ler
Aprimoraram o controle sob seu instinto rebelde
E os atuais mitos voltam a reinar

Mundo que cria filósofos
De afirmações cotidianas e efêmeras
Que cria artistas rudemente displicentes
Priorizando a estética

Mundo onde tua fé pode ser qualquer uma,
Mas tua verdade tem que acordar com a minha
Pois tenho medo que estejas certo

Meu mundo deve estar de acordo como o concebo
E de acordo como querem que eu o conceba
Refuta-se a ideia de acordar com o que nunca
Se mudaria por completo e nisto saber agir

Meu mundo,
Falsos realistas congelaram-te, separaram-te em partes
E generalizaram-te através das que lhes convinham
Ironicamente tornaram-se idealistas
Mudaram-te, meu mundo
Deixaram-te doente

A democracia é um jogo das elites, não é para as massas ignorantes que devem ser marginalizadas, entretidas e controladas, é claro, para seu próprio bem

(Walter Lipman, citado por Noam Chomsky, Manufacturing Consent, Video, Montreal, 1992)

SEMPRE GREGOS

 Ao liberdade ser tomada pelo Acaso
A sanidade pelo Infinito
E o futuro iminente cíclico
Dado pelo inoxerável e calmo Fado
Conheço,engulo o choro
Resta logo saber mais
E que eu saiba
 
Acham-me muito limpo
Mas quem vive não o é
E eu vivo
E que eu viva
 
Tornam-me especial
O solitário singular
Fugis e grito-vos:
Não,não vades embora
“Quero honras e promessas,
Lembranças e histórias”
 
Vede em meus olhos quem sois
Meus deuses também são assim
Querenças e vícios
Amores e paixões
Explode opiniões
E o passado se repete
Só muda de nome
 
E quando quisto não se mete
O outro deus a mais
Será que quando vem
Inefavelmente faz?
Ou sua percepção em
Nossa ignorância
Não jaz?
 
Amei antes de viver
Então nasci amando
Em bem estruturado querer
O mundo vai nos modelando
 
Errei ao estar a viver
Pois logo virei humano
Pra sem ferrugem assim ser
E mais vivo vão me tornando